Adesão ao colete na escoliose: por que alguns adolescentes conseguem usar e outros não?
Quando o colete é indicado para tratar a escoliose, um dos maiores desafios é incorporá-lo ao dia a dia do adolescente.
Usar a órtese pelo tempo recomendado exige adaptação. O jovem precisa estudar, praticar esportes, conviver com os amigos e lidar com as transformações naturais dessa fase. O desconforto, o calor, a preocupação com a aparência e as mudanças na rotina podem interferir na continuidade do tratamento.
Por isso, tratar a adesão como uma simples questão de disciplina não ajuda a compreender o problema.
O que dizem as evidências
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2026 por Sapienza e colaboradores investigou os fatores clínicos, psicológicos e sociais relacionados à adesão ao uso do colete em adolescentes com escoliose idiopática.
Os pesquisadores identificaram 1.040 registros nas bases de dados. Após o processo de seleção, 17 estudos, envolvendo 1.716 adolescentes, foram incluídos na revisão. Dez deles apresentaram dados suficientes para a análise quantitativa.
Os resultados mostraram que diferentes fatores clínicos, psicológicos e sociais estão associados à adesão.
Entre os aspectos associados a maior adesão estavam o monitoramento objetivo do tempo de uso por sensores, maior adesão no início do tratamento e menor idade dos participantes.
Por outro lado, fatores como estresse, percepção negativa da imagem corporal, dificuldades na dinâmica familiar, maior índice de massa corporal e pior qualidade de vida estiveram associados a menor adesão (SAPIENZA et al., 2026).
O que isso significa na prática
Esses resultados mostram que orientar o adolescente a “usar o colete corretamente” pode não ser suficiente.
A adaptação à órtese faz parte do tratamento. Questões como desconforto, calor, aparência, escola e atividades físicas precisam ser consideradas durante o acompanhamento.
A família também participa desse processo. Um ambiente de apoio pode facilitar essa adaptação, enquanto dificuldades na dinâmica familiar podem estar associadas a menor adesão.
O fisioterapeuta pode ajudar o adolescente a compreender o tratamento, identificar as barreiras encontradas no dia a dia e buscar estratégias para facilitar a utilização da órtese. Os Exercícios Fisioterapêuticos Específicos para Escoliose (PSSE) também podem fazer parte do tratamento, quando indicados.
Quando existem dificuldades relacionadas à própria órtese, a comunicação com o ortopedista e com o profissional responsável pela confecção e pelos ajustes também é importante.
Os primeiros meses merecem atenção
Um dos achados relevantes da revisão foi a associação entre a adesão no início do tratamento e a adesão em períodos posteriores. Os adolescentes que apresentaram maior adesão inicialmente também tendiam a apresentar maior adesão posteriormente (SAPIENZA et al., 2026).
Esse resultado reforça a importância de identificar as dificuldades desde o começo.
O adolescente precisa compreender por que o colete foi indicado, qual é o objetivo do tratamento e como ele pode ser incorporado à sua rotina. Da mesma forma, desconfortos e dificuldades devem ser discutidos durante o acompanhamento, antes que comprometam a continuidade do uso.
Cada adolescente enfrenta desafios diferentes
O uso do colete acontece durante uma fase de muitas mudanças. Por isso, a mesma orientação pode funcionar bem para um adolescente e não funcionar para outro.
Alguns podem ter mais dificuldade com a rotina escolar. Outros podem se incomodar principalmente com a aparência, o calor ou a prática de atividades físicas.
Conhecer essas particularidades permite que a equipe de saúde ajuste as orientações e ofereça um acompanhamento mais individualizado.
Considerações finais
A adesão ao colete não depende apenas da disposição do adolescente em seguir o tratamento. Ela está relacionada à interação entre fatores clínicos, psicológicos e sociais.
Mais do que cobrar o cumprimento das horas prescritas, é importante compreender as barreiras enfrentadas por cada adolescente e ajudá-lo a encontrar estratégias possíveis para manter o tratamento.
O acompanhamento próximo, especialmente no início, pode favorecer uma melhor adaptação e permitir que as dificuldades sejam identificadas antes de comprometerem a continuidade do uso da órtese.

Vânia Medeiros De Antonio
Fisioterapeuta | Crefito-19: 85436-F
Referência
SAPIENZA, Marco et al. Clinical, psychological, and social determinants of brace compliance in adolescent idiopathic scoliosis: a systematic review and meta-analysis. Journal of Functional Morphology and Kinesiology, v. 11, n. 1, art. 68, 2026. DOI: 10.3390/jfmk11010068.





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