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Por que a escoliose pode continuar a piorar após o fim do crescimento?

há 17 horas
3 min de leitura

Muitas famílias acreditam que, quando o adolescente para de crescer, a escoliose também deixa de evoluir. Mas isso nem sempre acontece.


Algumas curvas continuam aumentando mesmo depois da chamada maturidade esquelética. Por quê?


O que é maturidade esquelética?


É o momento em que o crescimento em altura praticamente se encerra. Mas parar de crescer não significa que a coluna deixou de sofrer mudanças. Os discos entre as vértebras continuam respondendo às cargas do corpo ao longo da vida.


O que os estudos mostram sobre progressão após o crescimento?


Uma revisão sistemática realizada para a U.S. Preventive Services Task Force analisou a história natural da escoliose idiopática do adolescente.


Objetivo


Entender o que acontece com a curva após o fim do crescimento.


Método


Análise de estudos de seguimento de longo prazo com pacientes que não foram operados.


Resultados principais


• Curvas acima de 40° ao final do crescimento têm maior risco de continuar progredindo na vida adulta.

• Curvas abaixo de 30° apresentam baixo risco de piora significativa.

• Curvas torácicas tendem a progredir mais do que as lombares.


Esses dados ajudam a definir quais pacientes precisam de acompanhamento mais próximo.


Quanto a curva pode aumentar?


Um estudo clássico acompanhou 187 pacientes com escoliose não tratada após a maturidade esquelética.


Objetivo


Avaliar a evolução das curvas ao longo da vida adulta.


Resultado


• A maioria das curvas apresentou algum grau de progressão.

• A progressão média foi de cerca de 0,4 grau por ano.

• Curvas torácicas maiores tiveram maior risco de sintomas respiratórios no longo prazo.

Isso mostra que, mesmo lentamente, algumas curvas continuam evoluindo.


O que pode explicar essa progressão?


Pesquisadores da Universidade de Utrecht, liderados pelo Prof. René Castelein, propõem um modelo biomecânico para explicar o fenômeno. A ideia central é simples: O crescimento ósseo pode ter terminado, mas a coluna ainda pode ser vulnerável do ponto de vista mecânico.


Os discos intervertebrais continuam amadurecendo e mudando suas propriedades ao longo do tempo. Essas mudanças podem influenciar a estabilidade da coluna. É importante destacar que esse modelo é uma hipótese biomecânica baseada em estudos estruturais e de imagem. Ele ajuda a explicar o fenômeno, mas não significa que todos os pacientes irão piorar.


Isso significa que toda escoliose vai progredir?


Não. Muitos adolescentes mantêm boa qualidade de vida e estabilidade da curva após o crescimento. Mas curvas maiores ao final do crescimento, especialmente acima de 40°, merecem acompanhamento regular. Maturidade esquelética não significa risco zero.


O que isso muda na prática?


• O acompanhamento deve ser individualizado.

• A retirada do colete não encerra automaticamente o seguimento.

• A avaliação deve considerar não apenas o ângulo da curva, mas também dor, função e bem-estar.


A decisão sobre continuar ou não o acompanhamento deve ser feita em conjunto com o profissional de saúde.


Conclusão


A escoliose pode continuar a evoluir após o fim do crescimento porque a coluna termina o crescimento em altura antes de encerrar completamente suas mudanças biomecânicas.


Isso não significa que todos os casos irão piorar. Mas significa que a vigilância adequada ainda é importante, principalmente em curvas maiores. Informação baseada em evidência ajuda famílias e profissionais a tomarem decisões mais seguras.


Marina Pinheiro
Marina Pinheiro

Referências

Weinstein SL, Ponseti IV. Natural history of untreated idiopathic scoliosis after skeletal maturity. J Bone Joint Surg Am. 1987;69(4):559–571.

Dunn J, Henrikson NB, Morrison CC, et al. Screening for Adolescent Idiopathic Scoliosis: A Systematic Evidence Review for the U.S. Preventive Services Task Force. JAMA. 2018.

Castelein RM, et al. Idiopathic scoliosis as a rotatory decompensation of the spine. Spine. 2020;45(13):E744–E751.

 
 
 

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